terça-feira, 16 de agosto de 2011

Contradição




Já faz um tempo, um bom tempo, que venho enrolando, postergando, adiando, mas já faz um bom tempo mesmo que queria lhe escrever.
Mesmo antes do dia que quando falou-me todo sem jeito, com medo, sem culpa do quanto de gostar que tinha por mim.
Me lembro ainda do dia em que quando nos conhecemos, com um assobio, um aceno e um convite, depois de alguns desvios no percurso para enfim, então selar nosso amor com um beijo sem pudor.
Minha mão, em sua perna, escorregava, acelerada, meio sem graça, como quem quer, mas que finge não querer para então parar entre suas mãos.
Noutro dia ainda virou, apertou minha mão, abraçou, me beijou e queria a confirmação do quanto nos dávamos bem. Não pude negar, virei, confirmei, lhe beijei, e quis fazer como se pudesse estar dentro de mim para sentir todo aquele amor o qual tanto me fazia feliz. Entretanto não era possível, sorri, quis chorar, passei por abraço o que queria falar.
Como xilogravura, literatura de cordel hei de esculpir em sua parede então todo o amor e desejo que sinto por ti. Proseando assim de cordel é de se notar o quanto temos muito disso, assim como também da literatura de Rosa, ele Riobaldo, eu Diadorim, ele sol, enquanto eu lua, numa eterna dança entre sol e lua, numa eterna repulsa e atração, onde não há de fato uma fusão.

Contraditório assim como todo amor.






segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Alegria


Veio me perguntar se eu era a alegria.
Sorri e respondi com outra indagação:
- O que sente quando está comigo?
Com um olhar e um sorriso respondeu.
-Então eu sou a alegria.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cobertor.

-Sabe, faz frio aqui.
-No início. Logo se acostuma.
-Mas estou tremendo muito.
-Comigo também foi assim.
-Demorou muito para sentir o calor de novo?
-O sufiente.
-Está quente agora?
Olhares. Abraço.
-Ah, está passando!
-Tem de aprender a se aquecer sem auxílio de ninguém da próxima vez.
-Não! Por favor, diga que não haverá próxima vez.
-Desculpe, não posso te dizer isso.
-Então...então, nunca mais solte seus braços, preciso desse calor.
-Não diga isso...sei que quem soltará meus braços será você.
Emudeceu.
-Guarde este calor, descanse. Logo te enviaram um cobertor.
Assim, descansou. Num sono profundo. E quente.
Sonhou com o cobertor.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tua

Teu riso me acalma.
Tua mão me conforta.
Teu olhar me alegra.
Tua boca me sacia.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Descuidado.

Ele não queria estar ali, não naquela situação, não com aquelas pessoas. Mas foram alguns passos em falso, e deu no que deu. Foi tudo sendo empurrado com a barriga. Não tinha como fugir mais, nem sabia se queria, era mais conveniente deixar tudo como estava.

Mas e a vontade? A saudade?

Tudo barrado pelo orgulho. Ou talvez pela vaidade.

Num dó é num ré, deixou umas lágrimas rolarem, assim como aquele filme em sua cabeça.

Eram sorrisos, beijos e abraços. Tempo bom, pensou.

Mas de que adiantava?

Era muito amor para uma pessoa só. Era amor que não se acabava. Amor que se mal cuidado se transformava, virava angústia, raiva, solidão.

Talvez ele não tivesse cuidado...

Deixou-se levar por tanto amor. Descuidado, ela sempre dizia. Ele nunca ouvia, não porque não queria, por birra, por nada disso, era puro e simples descuido. Ela tinha razão. Sempre teve. E ainda tem.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente - tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto (...)."

Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Canta, passarinho

Canta passarinho,
Que teu canto quero ouvir.
Traz teu canto de bem longe,
Que de lindo, faz-me rir.
Mas do riso, faz-se a lágrima
Que embala a minha tarde
Sorrateira, viro a página
Para não fazer alarde.

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